Depois de tantas idas e vindas é complicado manter ao menos uma amizade ou um coleguismo. Não dá, eu tive que colocar isso na minha cabeça e foi o que me fez não olhar pra trás. A vida é feita de escolhas e eu fiz a minha, ele a dele, e mesmo separados fizemos escolhas parecidas. Ou não.
Estava completamente desconfortável ali, sentada numa mesa de lanchonete, diante de um cara que eu tanto amei e que hoje não reconheço mais. Com a barba mal feita, e o olhar cansado. Vendo ele tentar ser amigável, quando a única coisa que nos restou foi uma falta total de espaço para ao menos nos sentirmos a vontade estando perto um do outro. Na verdade, nem sei porque estamos aqui.
- Seu pedido senhorita - o garçom serviu os meus adoráveis waffles com mel, acompanhado de uma xícara de café.
-Obrigada - eu sorri em agradecimento.
Ele se retirou.
- Que bom ver o seu sorriso novamente - ele disse baixo, enquanto tomava o seu café servido há alguns minutos antes do meu.
Dei um sorriso breve, sem demonstrar qualquer tipo de emoção com seu comentário.
- O que andas fazendo? - ele perguntou interessado.
- Ah, nada demais sabe? - o olhei rapidamente. Só estou estudando, me dedicando cada vez mais… Essas coisas.
- Hm - ele murmurou.
Acho que ele esperou que eu fizesse alguma pergunta. Vendo que eu não a faria, continuou.
- Eu estou focado em alguns projetos sabe? Pra crescer, você sabe… - deu um sorriso de canto de boca.
- Legal. - eu disse friamente.
Descontente com essa situação, decidi ir direto ao ponto.
- Felipe, porque estamos aqui? - fiz uma cara de descontentamento.
Ele suspirou.
- Não sei. Estava esperando descobrir quando te visse - ele disse de cabeça abaixa.
- Você me tirou dos estudos pra nada? - eu disse um tanto alterada.
- Por favor, não vai embora Luana - seus olhos suplicaram. Eu só queria te ver, saber como você está…
- Estou bem, você está vendo isso - dei um riso abafado. Por favor, eu não estou me sentindo a vontade aqui.
- O que eu fiz de errado? - ele riu enquanto balançava a cabeça. Me diz, talvez… Talvez eu possa acertar.
O olhei incrédula.
- Que? Foi para isso que você me chamou? - eu disse impaciente.
- Me diz… Eu preciso consertar as coisas - ele realmente parecia triste.
- Felipe - eu dei um riso de incredulidade. Eu não sei se você se lembra, mas eu te dei duas chances. E em ambas as vezes, você não agiu como se fizesse questão de nós dois. Não agiu como se quisesse acertar. Na verdade, foi você mesmo quem terminou comigo por ser imaturo e não aceitar o que você não gostava em mim, então…
- Mas da última vez, foi você.
- Fui eu sim, e não me arrependo. Você continuava imaturo e a nossa relação já não era a mesma. Poderia sim ter existido bastante amor e vontade para que desse certo porém não dava mais, e estava desgastado antes mesmo do tempo ter feito isso.
Ele me olhou com lágrimas nos olhos.
- “Poderia”? Você não me ama mais?
- Não posso falar sobre isso, não tenho certeza. Não sinto a tua falta como eu deveria, só sinto um vazio persistente. - dei de ombros. Talvez isso passe um dia.
- Como assim? - ele parecia nervoso. E a nossa história, os nossos planos?
- Não me esqueci deles. - eu sorri um pouco. Só que eles já não me enchem de esperança mais. Não faz nenhum diferença pensar sobre eles, não sei… Não penso nessas coisas.
- Você me superou… - ele fez um sinal de negação com a cabeça e eu gargalhei.
- E a Raphaela?
- Que? - ele arqueoou a sobrancelha.
- Você não estava ficando com ela, enquanto eu sofria? - dei de ombros e mantive o meu olhar frio sobre ele.
- Como você sabe dela?
- Tenho minhas fontes - cruzei os braços enquanto esperava alguma explicação de sua parte.
- Ela… Foi um momento de fraqueza, estava mal por ter te perdido, e… - o modo com que ele gesticulava com as mãos demonstrava o seu nervosismo desenfreado.
- Pois agora Felipe, eu estou no meu momento de ser forte. - sorri orgulhosa de mim mesma. Estou bem, estou concentrada no meu futuro e estou me divertindo como eu posso.
- Homens? - sua voz carregava uma dose pesada de ironia.
- Talvez - entrei em seu jogo. Não te interessa mais.
Sorri vitoriosa. Finalmente havia aprendido a jogar o seu jogo. E venci.
- Você mudou pequena… - sua voz era quase inaudível.
- Mudei sim Felipe - o encarei. Eu cresci. Aprendi a viver sem me culpar por erros dos outros, sem sentir falta de pessoas que não valem a pena. Eu aprendi a ser feliz sem precisar de ninguém, e muito menos de você. Estou realmente feliz e me sentindo ótima, assim como me senti alguns meses em que me vi sem você - eu sorri. Em pensar que no começo, eu me sentia fraca por cair nos seus jogos de me fazer ciúmes. Em pensar que, eu me sentia péssima por não ter mais você comigo. E eu finalmente entendi o que as minhas amigas diziam com ” Você vai superar, vai doer, mas você consegue”. Me apoiei nisso e me vi forte. Estou finalmente orgulhosa de mim mesma.
Seu semblante era triste, mas vi que ele tentou por um sorriso no rosto. Porém, pareceu mais um ato sarcástico de sua parte.
- Pelo menos alguém aqui superou.
- Que bom que esse alguém fui eu.
Sorri, retirei algumas notas da carteira e deixei em cima da mesa, abaixo da xícara do café. Levantei-me com elegância e antes de partir, disse com sinceridade.
- Espero que você saia dessa fossa e seja feliz.
Morava no bairro da Lapa, precisamente na Rua Benedito Costa, número 276. A casa estava precisando de umas reformas admito, mas nada que estivesse a me incomodar, pelo menos era o que eu achava.
A casa ao lado da minha pertencia a Senhorita Borgwats, uma moça distinta, descendente de europeus e muito bonita por sinal, que morava com 3 senhoras de idade.
Uma certa feita, enquanto fechava o portão da minha casa disposto a ir pra minha faculdade de Advocacia, deparei-me com a senhorita Borgwats, acompanhada de uma de suas senhoras.
- Bom dia – eu as cumprimentei com um sorriso.
-Bom dia – a bela jovem respondeu.
A velha que a acompanhava nem sequer me olhou, apenas fez um bico maior do que aparentava possuir e tentou arrastar a moça.
-Vamos Gisella, não é bonito para uma jovem ficar de mexerico com um rapaz.
-Creio que a senhorita não esta mexericando comigo senhora…
-Você sabia que seu quintal está mal cuidado e está nos atrapalhando? –a velha disse ignorando totalmente minha resposta anterior.
-Calma dona Ana.
-Não me peça calma Gisella, há tempos que eu queria conversar com esse rapaz. Você é um imundo, não limpa o seu quintal. As baratas e ratos estão começando a visitar a nossa casa, não me admira o fato de que você seja mais um solteirão do Rio de Janeiro.
-Epa, calma ai senhora…
-Não me peça para ter calma –ela foi totalmente grosseira- Ou limpa o seu quintal, ou chamo um órgão competente para te expulsar dessa rua.
Não deu tempo de eu responder. Assim que disse isso, a velha arrastou a pobre moça consigo. Antes de ir, a linda Gisella deu um sorriso sem graça pra mim e eu fiquei sem ação ao ver seus belos dentes alvos.
Fiquei por um tempo observando a senhorita entrar em sua casa. Quando dei por mim de que estava atrasado, sai correndo pela rua para não perder o trem.
A tarde, lá pelas 14:00 quando chegava da minha faculdade, vi que a Senhorita Bogwarts olhava pela janela as crianças brincarem de Amarelinha na rua. Quando me avistou, ela sinalizou para que a esperasse e veio ao meu encontro.
-Boa noite Senhor…
-Lobato, Eduardo Lobato.
-Então, senhor Lobato me perdoe pela grosseria da Dona Ana hoje cedo. Mil desculpas.
-Não tem o que se desculpar senhorita Bogwarts. Eu que peço desculpas por meu quintal estar empatando a senhorita e suas senhoras.
-Oh, não precisa levar tudo ao pé da letra. Realmente, seu quintal precisa de uma limpeza, mas não tem ratos passando pela nossa casa. Não passa de algumas baratas…
-E isso a incomoda?- ela abaixou a cabeça com um sorriso torto- Mais uma vez me desculpe senhorita.
-Não gosto de insetos, e nenhuma moça gosta de baratas - ela riu e eu fiz o mesmo.
-Prometo que amanhã limparei meu quintal, é que não tenho muito tempo para retirar as plantas inúteis de lá…
-Obrigada pela compreensão senhor Lobato.
-Me chame de Eduardo…
-Me chame de Gisella- ela disse sorrindo.
-Tem um belo sorriso senhorita… -ela me encarou- Quero dizer, Gisella.
-Obrigada Eduardo – as maçãs de seu rosto ficaram vermelhas.
-Não precisa ficar envergonhada, gostaria de tomar um sorvete comigo?
-Se não for nenhum incômodo…
-Se sua doce companhia fosse algum incômodo…
Fomos até a sorveteria, pedimos nosso sorvete e ficamos conversando.
-Meu quintal não tem bagunça. São só as plantas que crescem ao redor. Na verdade tenho algumas árvores frutíferas e duas roseiras, uma de rosas brancas e outras de rosas vermelhas.
-Jura? –ela sorriu- Eu amo rosas brancas.
-Você pode me esperar por alguns segundos Gisella?
-Claro.
Entrei em casa correndo, fui até meu jardim, recolhi algumas rosas brancas, as mais bonitas e as juntei formando um buquê. Havia um laço em cima da mesa da cozinha- que imagino que foi da cesta de café da manhã que minha mãe manda diariamente- e as enlacei.
Voltei para rua e lá estava ela, linda olhando para as mesmas crianças que brincavam de amarelinha antes.
-Senhorita Gisella…-chamei e ela me olhou surpresa ao ver o buquê de rosas- Gostaria de conhecer o meu quintal?
“Se tem algo que me deixa irritado, é observar algumas garotas pela rua e ver o quanto são fúteis. Muitas delas gastam o tempo e dinheiro, indo a salões de beleza caríssimos e se enchendo de maquiagem. Ou vão ao shopping e voltam cheias de sacolas em mãos.
Eu sou um cara comum, estudo, e trabalho numa loja de livros e cd’s. Adoro estar envolto de coisas simples e de pessoas interessantes. Por mais que seja uma coisa rara de ver nos dias de hoje. Enquanto estou no balcão, vendendo cd’s para centenas de pessoas, observo os seus gostos musicais e confesso que muitas vezes sinto vontade de rir. São poucas as pessoas que compram cd’s de bandas de qualidade e que tenham um gosto parecido com o meu.
Recebo também muitas cantadas de garotinhas estúpidas que não aguentam ver um cara. Garotas que vão ao meu local de trabalho, apenas para comprar uma revista de bandinhas da moda, ou de livros que não tem nenhum tipo de conteúdo. Não me chamam atenção.
Entretanto, hoje eu vi uma garota um tanto diferente entrar na loja. Não usava salto alto ou sapatilhas. Estava calçada com um all star branco, todo manchado de lama – supostamente. Calça preta, com alguns borrões brancos e uma camisa branca maior que ela, escrita “Foda-se” bem grande e com letras divertidas. Seu cabelo estava em um coque desarranjado e alguns fios castanhos claros saltavam sobre o seu rosto oval. Olhos claros, esverdeados e usava um óculos de lentes grandes.
Bastante original, pensei.
Concentrei-me na cliente que estava diante de mim, e mentalmente, pedi para que a garota comprasse algo e viesse pro meu balcão.
Assim que a moça saiu, eu olhei para o local procurando a tal garota, a vi olhando alguns Cd’s de rock nacional. Sorri, pois finalmente alguém tinha bom gosto.
Ela pôs o código de barras do cd, naquele aparelho que possibilita as pessoas de ouvir uma prévia do cd, e se não me engano era de Legião Urbana.
Ótimo gosto, pensei novamente.
A garota finalmente escolheu o cd e olhou para os caixas disponíveis. E felizmente eu era um deles. Mas ela foi na direção do caixa ao lado, e por sorte um gordão tomou a sua frente fazendo com que ela viesse pro papai aqui.
- É só isso? – eu perguntei fingindo não me importar.
- É sim. – ela se manteve séria, enquanto retirava o dinheiro da carteira – É esse preço mesmo não é?
- Aham, estão de promoção .
- Ótimo – ela me pagou.
- Você tem um bom gosto.
- Hãm? – ela me olhou curiosa.
- É que, geralmente as meninas normais não vem aqui pra comprar rock clássico.
- E quem disse que sou normal? –ela me olhou com seriedade.
Arqueei a sobrancelha e dei um riso contido. Ela era incrível.
- Porque tá rindo?
- Por nada – ensaquei o seu cd e a entreguei – A propósito, meu nome é Caio.
- Hm, prazer – ela deu um sorriso breve – Tchau Caio, e confira o dinheiro.
Eu fiquei surpreso por ela não ter dito o seu nome, e com pressa disse.
- Não vai me dizer seu nome?
- Confere a grana – ela disse enquanto se afastava.
Confuso, olhei pro dinheiro em minhas mãos e encontrei um pedaço de papel em meio a algumas notas. Lá, estava o seu nome e o numero do seu telefone, anotado com o que provavelmente seria um lápis de olho.
“ Rebeca, 3567-8922 (:”
Dei um sorriso olhando para a porta, e de longe a vi acenar com um sorriso nos lábios.
Ela realmente é incrível.”
“Se tinha algo nela que me deixava enlouquecido, era sem dúvida o seu olhar. Tem algo tão intenso neles, que me faz querer desvendá-la a cada segundo. Eu não posso deixar de olhá-la minuciosamente, pois sua beleza é inconsequentemente perfeita.
- Porque você não para de me olhar, Douglas? - ela me perguntou enquanto eu acariciava o teu rosto.
- Já viu o quanto você é linda? - eu sorri e ela fez o mesmo.
- Deixa de ser bobo, cara. - sua gargalhada ecoou no quarto.
- Falo sério. Eu amo olhar pra você, e fico decorando cada traço do seu rosto - coloquei uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.
- Você me deixa sem graça - suas bochechas coraram e ela deu um riso contido.
- Eu amo você Mariane, eu amo você.
Ela sorriu e em seguida a beijei. Seus lábios são macios, sua pele é uma seda. A amo com uma intensidade unânime, não tem nada nela que não me deixe apaixonado. Sua risada é perfeita, o modo com que os seus olhos se estreitam quando sorri. O cheirinho de seu cabelo.
Lentamente, nós encerramos o beijo e ela sorriu.
- O que você vê em mim? - eu perguntei.
- Como assim? - ela deu uma risadinha.
- O que te fez ser apaixonada por mim?
- Quer mesmo saber? - ela arqueeou a sobrancelha.
Eu assenti e em seguida sentou-se na cama.
- Se lembra o dia em que nos conhecemos? - ela falou empolgada e eu ri. Estávamos em uma biblioteca e queríamos o mesmo livro. Isso era incrível porque raramente as pessoas gostam de ler livros com uma escrita tão pesada e complicada. O modo com que você me olhou, foi hipnotizante e a sua risada… Nossa, me fez querer rir junto contigo. E amo pessoas que me fazem rir, sabe disso.
Fiz um sinal para que ela continuasse e ela o fez.
- Não sei Douglas, você é diferente - ela suspirou. É de uma gentileza incomum, e mesmo tendo os seus defeitos, como por exemplo a bagunça anormal, você é perfeito.
- Pra você - eu disse sorrindo.
- Exatamente, perfeito pra mim - ela sorriu.
- Mal sabe você que é a perfeição da nossa relação.
- Conta outra - ela fez um gesto com as mãos e em seguida as beijei. Eu sou toda errada e só você não vê isso. Sou completamente chata, e sei que te irrito com o meu perfeccionismo.
- Um pouco - disse com sinceridade.
- E isso não é motivo pra desistir de mim? - ela fez uma carinha de dúvida.
- Como poderia? Você equilibra a minha vida. Tudo o que eu não sou, você faz questão de ser e isso é ótimo. Você é compreensiva e versátil, além de ser completamente extrovertida. Enquanto eu, gosto de ficar no meu canto. Tu sabe que eu te admiro né? Muito, por sinal. E eu amo você, isso é motivo suficiente pra me fazer querer estar contigo pra sempre.
Com um brilho no olhar e um enorme sorriso nos lábios, ela disse.
- Pra sempre?
- Para todo o sempre meu amor.
E a beijei.”
“Já estava acostumado com a minha falta de sono, talvez tenha me acostumado porque quando era mais novo eu gostava de ficar perambulando pela casa durante a madrugada. Mas hoje, essa situação se tornou insuportavelmente estressante. Primeiro porque meu dia fora bastante cansativo. Acordar cedo aos sábados não é uma missão nada agradável para alguém, e pior ainda se esse ‘alguém’ sofrer de insônia. Depois, porque encarar esse trânsito insuportável também não é nada legal, principalmente se o ônibus estiver lotado. Ainda tem o fato de chegar atrasado no cursinho e dar de cara com aquele professor chato e irritante.
Durante a aula, nada me chama atenção, mas hoje foi diferente.
Aquela garota, aquela que desde que eu entrei no cursinho fez meu coração disparar. Não por ela ser gostosona e perfeita. Não, aos olhos dos outros ela passa muito longe de ser assim. Mas aos meus olhos, ela é encantadora. Principalmente por ter um olhar misterioso e um sorriso tímido perfeito. Seus dentes bem alinhados, e seu cabelo preso em um rabo de cavalo. Ela é linda. Seu jeito de andar é meigo, o modo com que ela se veste é fofo. Eu realmente estou apaixonado, pois no meio de tantas garotas medíocres, lá estava ela… A Catarina.
Ela sentou ao meu lado, e assim que o fez, meus olhos correram ao seu encontro. Ainda bem que ela estava de cabeça abaixa, seria constrangedor para ela me ver a olhando com tamanha curiosidade.
Infelizmente, o professor percebeu o meu olhar e em voz alta, fez o favor de me constranger e de fazer o mesmo com a garota.
- Sei que a Catarina é linda, Guilherme. Mas eu te aconselho a prestar atenção na aula, e não na sua colega.
Deu tempo de vê-la levantar o rosto e com o olhar assustado e tímido, me encarou. Suas bochechas se ruborizaram e rapidamente ela abaixou o olhar. Em seguida, eu voltei a prestar atenção na aula.
Quando o sinal bateu e todos da sala saíram, vi que Catarina estava fazendo algumas anotações em seu caderno. Não podia simplesmente deixá-la ir, sem ao menos pedir desculpas.
- Ca…Catarina, me desculpa por aquilo. Eu não queria te constranger diante da sala, me perdoe.
- Não precisa pedir desculpas Guilherme. – sua voz era baixa e fofa, ela estava olhando pra mim.
- Precisa sim, você ficou envergonhada. – disse um tanto nervoso.
- Er…-ela abaixou a cabeça. - Acho o seu jeito tímido tão fofo… - disse com um sorriso contido.
- Ah… – novamente suas bochechas ficaram vermelhas- Obrigada, mas não é legal ficar com vergonha de tudo, principalmente quando suas bochechas fazem questão de indicar o que se está sentindo.
Eu dei um riso e ela sorriu em seguida.
- Bom, pra me desculpar, você aceita tomar um lanche comigo?
Ela deu de ombros.
- Sem problemas.
Ela se levantou e eu fiz questão de pegar seus livros, que por sinal estavam muito pesados para uma garota tão delicada como ela. Pedimos um lanche e ficamos conversando. Volta e meia, ela ficava com as bochechas vermelhas, porque eu fazia questão de encará-la e por dentro eu pensava em como podia existir uma garota tão perfeita como ela. Após alguns minutos de conversa, ela me interrompeu.
- Guilherme, me desculpe, mas eu tenho que ir. Fiquei de encontrar com meu namorado daqui a 5 minutos na frente do cursinho. –ela disse com um olhar meigo e voz cautelosa.
Mas nem isso foi capaz de amenizar a dor que preencheu no meu peito. Uma sensação horrível de vergonha, de raiva, de pena de mim mesmo, de estupidez… De tudo, preencheu o meu peito e me deu uma vontade súbita de surrar a mesa em que estávamos.
- Você tem namorado? – eu disse tentando conter a raiva.
- Ah sim. – ela sorriu e em seguida seu riso se desmanchou, e seus olhos se apertaram – Você…? Me… Me desculpe Guilherme, se eu soubesse não tinha aceitado o convite, me… Me desculpa. – ela ficou nervosa, e tentou me acalmar, mas não deu muito certo.
- Tudo bem, eu… – dei um riso mega sem graça- Eu deveria ter imaginado. Como sou idiota. Droga!
Retirei o dinheiro da carteira e joguei na mesa.
- Por favor, paga a conta pra mim? – ela assentiu e eu sai rapidamente da lanchonete, e em seguida fui pra casa.
O resto do dia, eu fiquei me lamentando por ser o maior idiota do momento. Deveria ter imaginado que uma garota como a Catarina nunca estaria solteira. Enfim, agora eu estou aqui, acordado durante a madrugada, com um pote de sorvete e com uma cara de sapo, cheio de olheiras e pensando numa desculpa inteligente para que eu convença a diretora a me mudar de cursinho. Porque além da dor que estou sentindo, com certeza, se eu ver a Catarina mais uma vez quem vai ficar com vergonha sou eu.”
Mais um dia de escola, e Marina estremecia só de pensar. Seus maiores pesadelos não se encontravam nos sonhos e eram mais reais do que todos imaginavam. Aquela garota de sorriso tímido e olhos assustados, passava o maior sufoco por ser gordinha. Seus colegas de classe não a respeitavam, e faziam com que Marina chorasse por horas todas as noites. E como se não bastasse, a garota passou a se machucar com giletes e tesouras, deixando marcas em seu pulso.
- Vamos logo Marina, você está atrasada! – sua mãe gritava enquanto tirava o carro da garagem.
- Eu não quero ir á escola mãe, eu não quero! – Marina insistia com lágrimas nos olhos e voz embargada.
- Não consigo entender o motivo de você não gostar da escola, Marina. É uma ótima escola.
- Mas eu não gosto de lá, ok?– ela entrou no carro e sua mãe acelerou.
Chegando à escola, Marina sentara no canto assim como fazia todos os dias. A sala estava vazia e estava em paz por alguns minutos. Mentalmente, fazia uma oração pedindo para que todos a deixassem quieta pelo menos um dia.
A sala começara a encher e as meninas patricinhas que viviam rindo de Marina, sentaram-se nas fileiras ao lado da dela. Logo logo, os comentários patéticos sobre a garota teriam início.
- Tem gente que não cai na real, nunca vi uma baleia estudar – disse Emily, a loirinha de voz esganiçada e em seguida suas amigas riram.
Marina abaixou a cabeça e seus olhos encheram de lágrimas. Foi o suficiente para que os meninos a vissem chorando e dessem início a gozação.
- A gordona está chorando – o garoto disse enquanto ria – Que comovente.
Marina levantou-se e saiu correndo, mas os outros garotos estavam na porta e a prenderam na sala. Os outros colegas da sala retiraram algumas folhas do caderno, fizeram bolinhas e atiraram na garota. Marina chorava, não agüentava mais essa humilhação.
- Me deixem em paz! –ela gritava enquanto chorava.
E um garoto deu um soco em seu rosto. Os demais a empurraram, fazendo com que caísse no chão. A chutaram, bateram- na, e distribuíram socos em seu corpo. A dor que Marina estava sentido, era pior do que todas as vezes que em que fora humilhada. Não tinha outra reação a não ser chorar. Chorava, pois sabia que não merecia tamanha agressão. Sentia seu corpo formigar, devido aos socos e chutes. Pedia a Deus para que alguém chegasse e a tirasse dali. Ouvia risos.
- Marina!! – foi a última coisa que ouviu antes de desmaiar.
***
Sentiu uma tontura ao tentar abrir os olhos, assim que o fez, viu sua mãe chorando e fazendo cafuné em seu cabelo. As lágrimas começaram a cair no rosto de Marina, e sua mãe a abraçou.
- Eu não imaginava Marina. – disse sua mãe chorando- Não imaginava que você passava por isso na escola. Não sabia, se eu soubesse não te deixaria ir, me perdoe filha.
- Tudo bem mãe, eu sei que a senhora não sabia – ela tentou sorrir, mas sentia seus lábios inchados.
- Eu fui lá, pois vi que você tinha esquecido seu lanche no carro. Quando te vi jogada no chão, desmaiada, meu mundo desmoronou. Você deveria ter me dito o que eles faziam com você filha…
- Eles nunca me bateram mãe, foi a primeira vez. Sempre me zoavam, faziam chacota de mim mas nunca me bateram. Hoje eu me senti perdida, deslocada, completamente invadida por pessoas que nunca tentaram me conhecer. Só me viam como a garota gorda e me tratavam como uma aberração. Por que isso mãe? – sua voz estava falha- Eu nunca fiz mal a ninguém, sempre respeitei a todos. Eu não podia dizer nada, pois eles me ameaçavam. Os professores não se importavam. De tanta dor que eu sentia por tanta humilhação, passei a me cortar. Mas não era nada perto de tudo que eu passava na escola. Nada se compara com a dor que senti durante todo esse tempo.
- Eu me importo Marina, você é minha filha. –ela beijou a testa da filha- És perfeita pra mim, para o seu pai e aos olhos de Deus. Não tem nada de errado em você meu anjo, e todos eles são hipócritas por não perceberem isso. O que eles te fizeram é crime. Bullying e agressão física. Vou processar a escola por não prestarem socorro e por ninguém nunca ter feito nada enquanto te xingavam. A família daquelas crianças vão pagar pelos erros dos filhos, pois deveriam ter ensinado a todos a respeitar os outros, independente de qualquer coisa.
- Eu não quero estudar mais mãe, não quero – Marina chorava.
- Vai sim, vai mostrar pra todo mundo que você não é diferente. Vai mostrar pra todos e pra você mesma, que você pode. Que você é capaz de superar qualquer coisa e eu estarei do seu lado de apoiando, te darei um tempo pra se recuperar e sentir-se melhor. Vou te pôr em uma escola que te aceitem, e você vai sentir orgulho de si mesma por ter vencido. Eu acredito em você meu amor.
- Eu vou superar mãe, vou ser alguém. Vou mostrar a todos que eu sou forte. Eles me fizeram forte, e eu preciso me sentir assim. Eu sei que eu posso, e vou ajudar todos que sofrem de bullying a superarem também. Quero fazer a diferença, e eu sei que sou capaz. E todos aqueles que me fizeram chorar um dia, me verão sorrir e superar os meus limites. Vou lutar contra o bullying, pelo resto da minha vida e acabar de vez por todas com esses rótulos dados pela sociedade.
Enquanto ela assistia a um filme qualquer, abraçada ao seu urso de pelúcia que guarda desde pequena, seu telefone tocou. Sem vontade alguma de atender ao telefonema, ignorou ao mesmo e continuou a ver o filme sem prestar muita atenção aos detalhes. Sabia que se fosse importante, a pessoa deixaria recado na secretária eletrônica.
“Olá, aqui é Lucy e infelizmente não estou no momento. Portanto deixe seu recado após o “bipe” que retornarei á sua ligação o mais rápido possível.”
Biiiiip.
- Eu estava com saudade de ouvir a tua voz… Mesmo sendo por uma gravação (riso forçado). Sabe Lucy, (suspiro pesado) sinto a tua falta. Pode parecer idiotice já que fui eu que te deixei, mas… É como se tivesse perdido toda a razão da minha vida e infelizmente percebi isso depois que… Você sabe (risinho sem graça). Sou um imbecil, e muito, mas não quis continuar te magoando. Eu vi que estava magoada Lucy e tudo que eu menos queria era causar-te lágrimas. Talvez não tenha te feito feliz o suficiente e talvez…(suspiro) Talvez não tenha demonstrado o quanto te amei e por isso te fiz sofrer. Me perdoe Lucy. (voz embargada). Se eu te jurei amor eterno é porque eu sinto que é eterno esse sentimento, mesmo que eu tenha desistido. Mesmo que pareça que eu tenha desistido. Mas não desisti. Por vezes, depois daquele dia, eu me peguei chorando incessantemente por você. Por ter te deixado. Mas eu realmente achava que era o certo a fazer, e ainda acho. Mas a vontade de te sentir por perto, de ouvir tua voz pelo menos por mais uma vez, foi mais forte do que essa minha razão inconsciente. E pode ser que você esteja ai, nesse exato momento, sentada no sofá agarrada a tuas próprias pernas e ao mesmo tempo abraçada naquele ursinho branco antigo que tens desde criança, ouvindo o que estou a dizer, mas sem querer se protestar. Eu te entendo…(fungada profunda) Eu realmente te entendo se não quiser falar comigo. Eu não te mereço, (riso fraco) e eu tenho plena certeza disto. Mas só quero que saibas que não te esqueci em momento algum, e que a imagem de ti sorrindo não sai da minha mem…
Ela atende o telefone rapidamente, com os olhos embargados e respiração ofegante. Seu coração palpita em seu peito…
- Sempre te admirei pela disposição que tens de correr atrás do que ama. E eu esperei durante esses dois meses por esse telefonema. (ela continua a chorar) Porque demorou tanto para o fazer? Porque demorou de ligar para ouvir minha voz? Eu realmente achei que já havia me esquecido Mark. Não adianta me dizer que fez isso pois achavas que me fazia sofrer… (suspiro pesado)Pois terminar comigo não foi a melhor das suas tentativas de evitar tamanho sofrimento. Não me poupou das noites frias em que tateava a minha cama e não te tinhas ao meu lado. Mark, não conseguia encontrar motivos para que eu me levantasse todas as manhãs, pois você não estava mais em minha vida como esteve durante 16 meses. 16 meses em que prometeu estar comigo em todos os momentos de minha vida. Não tens ideia do quanto desejei morrer por ter sido abandonada pelo único cara que me fez amar de verdade…
Ele a interrompeu.
- Me perdoe Lucy (seu choro fazia com que sua voz falhasse). Eu achei que…
- Achar? Porque não perguntou o que eu sentia? Porque simplesmente não olhou nos meus olhos e perguntou se eu queria que saísse de minha vida?
- Porque sou um completo imbecil como eu já disse(pausa). Eu comprei aqueles filmes do desenho que você costumava assistir e dar altas gargalhadas… (ele riu fraco) Queria me sentir mais próximo a ti de algum jeito…
- Comprou filmes dos Pinguins de Madagascar? (ela riu um pouco)
- Comprei. E senti tua falta a cada segundo, pois sempre que esse desenho passava na tv, eu estava ao seu lado te olhando rir e me apaixonando mais e mais por você.
- Andei ouvindo os Cd’s do meu pai dos Gun’s n Roses… (ela disse com timidez)
- Você não gosta da banda…
- Queria te sentir por perto…
- E sentiu?
- Não. Não o suficiente.
Ambos ficaram em silêncio.
- Eu amo você Lucy, me perdoa.
- Eu também te amo Mark…
- Me perdoa?(ele insistiu)
- Estás perdoado…
- Posso voltar pra você Lucy Barks? (disse ele receoso)
- O que estás esperando Mark Campbell? (ela sorriu)
- Você abrir a porta.
Eu estava cansada de ficar em casa o dia todo, apenas tomando conta do Tobby e da Kiki (meus cachorros de estimação). Precisava de companhia, de uma diversão. De algo que pudesse me distrair de fato. Deixei meus filhoquinhos em suas devidas casinhas, e fui pôr uma roupa menos “bagunçada”. De havaianas no pé, short jeans e regata, peguei as chaves de casa que estavam em cima da mesa e sai.
Nunca havia reparado em como a rua que eu morava era extremamente correta. Tudo limpinho, as árvores floridas e algumas crianças brincando de bicicleta no meio da pista. A tranquilidade era eminente, e tinha até alguns vizinhos conversando em um dos bancos espalhados por aqui. Acho que a minha pressa matinal ao retirar o carro da garagem, me privava de observar a bela vizinhança que eu possuia.
Dei olá a algumas crianças que estavam por ali, e pude até notar certos olhares de surpresa. Talvez porque eu estava em casa em um dia de semana, talvez por ter saído de casa a pé, ou por tê-las cumprimentado.
Resolvi ir a uma lanchonete, ouvi falar que havia um dos melhores sanduíches lá. Eram 5 horas da tarde e o movimento não estava lá essas coisas, fiquei satisfeita já que não gosto de lugares muito cheios.
Sentei-me em um daqueles bancos altos do balcão e alguns segundos depois, a atendente veio até mim.
- Boa tarde - ela sorriu, com certeza ela era obrigada a fazer isto - O que a senhora vai querer?
- Ah, boa tarde - sorri por educação também - Hm, eu quero um sanduíche light e suco de abacaxi de hortelã.
A moça assentiu com a cabeça e entrou na cozinha.
- Adoro suco de abacaxi também - uma voz rouca soou do meu lado.
Dei uma olhada rápida e havia um rapaz bem simpático, de cabelo castanho claro e olhos cor de mel sentado ao meu lado.
- Ahm, que bom né? - eu disse sem entender muito bem o motivo dele ter falado comigo.
Eu já disse que não sou sociável? Pois é, eu não sou.
- Eu nunca te vi por aqui.. - ele continuou a conversa, ignorando a minha resposta anterior - Você mora por essas redondezas?
- Er, eu não costumo sair de casa para fazer “nada” entende? - dei um sorriso rápido e forçado - E sim, eu moro por aqui.
- Não é de muito papo não é? - ele deu um riso e eu o olhei. Ok, ele tinha um belo sorriso. Ok, ele era lindo.
- Não sou uma boa pessoa para se conversar, sabe? - dei de ombros.
- Sei como é… - ele pausou por alguns instantes. - Meu nome é Gustavo.
- Hellen - finalmente consegui dar um sorriso espontâneo.
- Que bom ver um sorriso espontâneo nesse rosto lindo - ele disse e eu fiquei sem graça.
A atendente trouxe o meu pedido.
- Obrigada.
- Não tem de que - ela sorriu. - O mesmo de sempre Guto? - ela perguntou ao Gustavo.
- Só um café por hoje Kelly - ele disse e ela voltou pra cozinha.
Peguei um canudo e tomei um pouco de suco.
- Eu não quero interromper o seu lanche, Hellen, eu vou me sentar em outro lugar - ele ia se levantando e por instinto eu o segurei pelo braço.
Levantei os meus olhos e ele me olhou confuso.
- Fica… Por favor? - dei um sorriso amarelo.
Eu mordi meu sanduíche, ele sentou-se e deu um riso contido.
- Há minutos atrás você nem olhava pra mim direito - ele me olhou com ternura.
- Desculpa - eu disse sinceramente - Eu não sou muito acostumada com atenção, sabe?
A atendente voltou com o café dele e ligeiramente se retirou. Ele tomou um gole e eu sorri. Ele era completamente lindo até mesmo tomando um mísero e simples café.
- E ai misteriosa Hellen, o que você faz da vida? - ele seguro o queixo. Parecia bastante interessado em mim.
- Corretora de imóveis. - dei de ombros - E você?
- Gerente de um banco - eu o olhei surpresa - O que foi?
- É que você não parece nem um pouco com um cara que fica o tempo todo sentado em uma sala, mexendo e lidando com cálculos.
Ele deu uma gargalhada alta.
- Que foi? - eu ri um pouco.
- Todos me dizem isso - ele tomou o resto do seu café e eu comi o ultimo pedaço do meu lanche - Eu amo o meu trabalho, só que não sou de me fixar apenas nele, sabe? Gosto de ser feliz.
- Quem dera eu conseguir isso… - abaixei minha cabeça e passei o dedo indicador sobre a borda do meu copo.
- Você é muito sozinha. - ele disse e isso despertou minha atenção - Eu pude perceber isso desde o instante que entrei por aquela porta.
- Sério? - arqueei a sobrancelha, era um tanto impressionante alguém se importar tanto comigo.
- Ah, por favor né? - ele caçoou- Você é uma mulher linda e estava sentada em uma lanchonete, ás 17 horas e sem nenhuma amiga ou carinha do lado. Não é muito comum isso.
Dei de ombros.
- Mas se você quiser um amigo pra vez ou outra sair pra tomar um suco de abacaxi com hortelã… - ele sorriu e eu fiz o mesmo.
- Eu adoraria - disse com sinceridade.
- Será um prazer.
Ok, eu fiz um amigo. Um dia bem estranho, ou melhor, uma tarde bem estranha. Mas a vida é feita de pequenas mudanças não é mesmo? Uma variada de rotina, pode te trazer grandes surpresas por fim. Sorrisos e um brilho no olhar que não havia em mim há tempos. Uma mudança pequena pra muitos, porém muito notável pra quem não curte muito ser notada.
Sei que o Gustavo vai me ensinar a ser menos na minha, sei que eu vou ser um pouco feliz sendo amiga dele. Amigos nos mudam, e todos devem ter ao menos um amigo. É a opinião de alguém que viveu muito tempo sem nenhum.
Estávamos os cinco sentados em uma roda olhando uns para os outros. Janaína, Marcela, Jorge, Danilo e eu nos reunimos mais uma vez para fazer nada. Era o nosso programa preferido, devo admitir. A desculpa dada aos nossos pais era sempre a mesma “vamos nos reunir para estudar matemática”, e por mais que essa possa ter sido a ideia inicial, nunca acontece de fato.
- Orra Gustavo, não tem nem uma droga de coca-cola aqui nessa tua casa? - Marcela gritou da cozinha, supostamente havia aberto a geladeira e se decepcionado assim como eu me sinto a cada vez que faço o mesmo.
- Minha mãe está de dieta - bufei.
- Saco!! - sentou-se no sofá e cruzou os braços com a almofada em volta.
Jana estava rindo da cara da Marcela e eu simplesmente senti meu coração bater mais forte. Vai entender.
- Dude, vamos fazer algo animal. - Jorge disse tentando nos animar - Precisamos de algumas bebidas, comida e stripers!!
- Toma no cu Jorge, acorda cara, não somos personagens de filme americano - Danilo jogou uma almofada na cara do Jorge que mostrou-lhe o dedo do meio.
- E caso você não lembra, não são só vocês aqui! - Jana disse com aquela voz meiga e doce que saia de suas cordas vocais - Eu não sou lésbica, queridos!
- Não seria nada mal ver você e a Marcela se pegando - Jorge mordeu os lábios, Marcela levantou-se rapidamente e deu um tapa em sua cabeça.
- Mais respeito moleque atrevido! - todos rimos da Marcela.
- Você não tem algum jogo perdido por aqui Guto? - Jana disse e eu neguei com a cabeça - Argh, você não tem nada hein?
Tenho meu amor por você, pensei. Af, no que estou pensando?
- Sinto muito por estragar os teus sonhos princesa. - disse rindo e dei de ombros.
- Ao menos você tem que ter uma garrafa, certo? - Danilo disse e eu já deduzi aonde ele queria chegar.
- Verdade ou consequência?! - eu falei em um tom mais alto e todos me olharam - Ah, qual é… Esse jogo é flopadérrimo.
- “Flopadérrimo”, Gustavo? - Marcela arqueou a sobrancelha esquerda - Quão gay isso soou em uma escala de mil a mil?
A fuzilei com os olhos e ela deu um riso contido.
- Ah, Tavinho - Danilo sentou-se ao meu lado, acariciou meu cabelo e afinou a voz - Vamos jogar vai?
- Sai daqui viado! - eu disse rindo e ele o fez. - Tudo bem então.
- Vai buscar a garrafa Gustavinho - Danilo abriu um sorriso do tipo “faz logo o que eu to mandando seu filho da puta”.
Levantei-me e fui em direção à dispensa, com certeza acharia alguma garrafa por lá e encontrei várias delas por sinal. Voltei à sala, e joguei o objeto no meio e Marcela colocou-a no lugar para que ficasse exatamente ao centro. Sentei-me entre a Marcela e o Danilo, Janaina estava ao lado dele e em seguida o Jorge fechando assim o círculo.
- Quem começa? – Marcela disse um tanto empolgada e eu a olhei como se houvesse um enorme sinal de interrogação em minha testa – Ah, não me olha assim! Não tenho culpa de amar essa brincadeira.
- A Marcela não perde uma chance de saber os podres dos outros. – Janaína disse rindo e a Marcela piscou para ela.
Confesso que senti minha espinha gelar.
- Eu começo! – Jorge deu um riso esquizofrênico e girou a garrafa.
O objeto girava freneticamente e eu sentia que meu coração ia sair pela boca. Não podia parar em mim, eu não queria começar o jogo. Quando a garrafa foi perdendo a velocidade, parecia que meu coração ia desacelerando os seus batimentos. Ok, me sinto uma bichinha descontrolada nesse exato momento, mas meus segredos estão em perigo agora. Não quero que a turma descubra que sinto algo pela Jana, com certeza eles vão me zoar e a Janaína pode se afastar de mim.
Como se a garrafa tivesse escutado os meus pedidos – o que é impossível, o gargalo da mesma apontou para a Marcela e para o Danilo. Ótimo.
Danilo sorriu.
- Verdade ou consequência Chel?
Marcela odiava ser chamada assim.
- Não me provoca Danilo – a garota deu um sorriso irônico. Verdade.
- É verdade que você foi pega no banheiro com o Gabriel? Fazendo… Coisas? – Danilo foi direto aos assuntos polêmicos.
- Curioso você hein? – Marcela riu.
Bom, há um mês atrás algumas pessoas disseram ter visto a Marcela saindo do banheiro masculino e após sua saída, Gabriel saiu do mesmo local olhando para os lados de modo desconfiado. Cada um foi para um lado e o boato percorreu pela escola durante umas três semanas. É claro que ambos negaram o ocorrido, e nós mesmo sendo os “melhores amigos” da Marcela, não sabemos de nada e decidimos não tocar no assunto. Até agora.
- Sim, eu estava no banheiro com o Gabriel – ela disse séria enquanto observava suas enormes unhas. – E sim, estávamos fazendo… “coisas” – ela aspeou a palavra com os dedos.
- Do tipo… – Jorge sugeriu que ela dissesse.
- Eu e o Gabriel ficamos por alguns meses e acabamos nos empolgando um pouco, na verdade, nós não transamos como vocês pensam. Apenas demos uns amassos marotos, nada demais.
- No banheiro? – Danilo arqueou a sobrancelha e Marcela bufou – Não rolou uma masturbação básica da parte de vocês?
- Não era apenas uma perguntinha? – Marcela olhou para o Danilo e ele deu de ombros. Não rolou masturbação e muito menos sexo! Mais alguma pergunta?
Todos disseram que não com a cabeça.
Marcela girou a garrafa. Dessa vez o gargalo parou em Jorge e a outra extremidade na direção do Danilo.
- Verdade ou consequência mate?
- Verdade.
- Vejo que todos querem se abrir por aqui – Jorge disse rindo. Enfim, você já teve sonhos eróticos com…
Wow. A turma só pensa em putaria.
- Na sinceridade? – Danilo riu. Já sonhei com a Janaína e Marcela se pegando – as meninas reviraram os olhos. – Foi bem excitante, e a Jana tinha peitões.
- Se foder Danilo! – ela disse corada.
- Relaxa Jana, eu amo teus peitos – Jorge disse e senti meu estômago queimar.
- Ah, e eu sonhei que eu trepava com a Marilu da sala 23.
- Só em sonhos mesmo – eu disse e todos riram menos o Danilo.
- Vou até ignorar o comentário Gustavo. Mas esses dois foram um dos mais recentes que eu lembro.
- Espera, você sonhou comigo e com a Janaína recentemente? – Marcela perguntou.
- Semana retrasada.
- Desnecessário – Jana disse e ele riu.
- Vou girar!
Danilo girou a garrafa novamente. O gargalo parou em mim e a extremidade no Jorge. O que eu iria perguntar?
- Verdade ou consequência dude?
- Consequência.
Arregalei os olhos. Por essa eu não esperava. Mas tamo aê, né?
- Desafio você a sair correndo pelado pela rua, daqui da porta de casa até a esquina – eu disse tentando não rir, enquanto os outros faziam o mesmo.
- Pirou Gustavo? – ele perguntou incrédulo.
- É o jogo, certo? Você escolheu consequência – dei de ombros.
- Achei que tu ia mandar eu beijar alguma das meninas.
- Pois então não seria um desafio! – eu dei um sorriso sarcástico. Ou você sai correndo pelado, ou beija o Danilo de língua.
- QUE? – Danilo urrou.
As meninas estavam rolando de rir e eu estava me segurando para não fazer o mesmo.
- Você me paga!
Ele tirou a camisa e em seguida a calça, ficando apenas de cueca Box. Marcela e Janaína estavam coradas e riam sem parar. Saímos da sala e fomos até a varanda de casa, Danilo pegou o seu celular e colocou em modo de vídeo.
- Cacete Danilo, você não vai filmar isso né? – Jorge disse irritado.
- Cê só pode estar louco em achar que vou perder essa oportunidade – Danilo ria incessantemente.
- Vai Jorge, tira a cueca – eu disse rindo.
- Orra cara, tem um monte de gente aqui! – ele disse olhando para os lados – E se tiver alguma criancinha?
- Não tem nenhuma criancinha por aqui - Marcela disse.
- Cala a boca Marcela! – Jorge disse enquanto tirava a cueca.
As meninas deram gritinhos e continuaram rindo. Danilo filmava e eu me acabava de rir também.
- Agora corre Jorge, aproveite sua liberdade!! – Danilo gritou e Jorge respirou fundo.
- Porra, vocês são uma cambada de filhos de uma puta!
Jorge saiu correndo e Danilo foi logo atrás filmando tudo enquanto gritava coisas do tipo: “voa butterfly”, “corre gazela”, “vai bambi” etc.
Em menos de dois minutos Jorge voltou extremamente suado e vermelho. As meninas taparam os olhos para não ver o pênis dele, e o Danilo não parava de rir.
- Vão se foder vocês! – Jorge gritou e entrou em casa. Nós os seguimos.
- Porra, tinha uma galera lá na praça que me viram correndo e todos começaram a tirar fotos! Devem ter postado tudo no instagram, porra você é um filho da puta Gustavo!
- Você escolheu consequência meu caro, apenas fiz o meu trabalho!
Rapidamente Jorge vestiu-se e as meninas abriram os olhos. O garoto estava vermelho de raiva e não conseguia nem olhar para mim, foi engraçado.
- Vamos continuar – Danilo disse sentando no mesmo lugar de antes.
Todos fizeram o mesmo.
- Roda a garrafa Jorge! – Marcela disse.
O garoto girou o objeto que apontou para Janaína e Marcela. Jana iria perguntar a Marcela.
- Verdade ou consequência Mar? – Jana sorria.
- Acho que não tenho opção, né? – Marcela deu de ombros. - Consequência.
Jana suspirou e olhou para cima. Parecia estar pensando em algo.
- Olha, vai ser super fraquinho porque não tenho coragem de mandar você fazer outra coisa – Jana a olhou. – Você terá que dar um beijão de língua no Danilo. Mas tem que ter pegada.
Olhamos pra Marcela que fez uma cara de nojo e em seguida pro Danilo que estava já mordendo os lábios. Dessa, até o Jorge riu.
- Preferia sair correndo peladona na rua! – Marcela disse e Jorge gargalhou ainda mais.
- Sou tão ruim assim? – Danilo a olhou e Marcela não disse nada.
Marcela foi se “engatinhando” até o Danilo e o olhou. Talvez tentando tirar algo de bom da situação. Sentou-se de frente para ele, e como o garoto estava sentado na posição de meditação, esticou suas pernas passando pela cintura do jovem. Para mim aquela posição parecia desconfortável. Enfim, as mãos de Danilo estavam apoiando-o no chão, e o braço esquerdo da Marcela exercia a mesma função. Com a mão direita a garota segurou a nuca do Danilo e mordiscou o lábio do mesmo, assim que o fez, selou os seus lábios de uma forma tão terna que poderíamos jurar que havia sentimento no beijo. Rapidamente, ambos já estavam dando um beijo de dar inveja a qualquer um.
- Wooooow! – eu disse e o Jorge olhava tentando ver se eles estavam dando beijo de verdade ou se era técnico.
- Língua! – Jorge disse e ficamos rindo até os dois cessarem o beijo.
Marcela se afastou de Danilo rindo e o garoto parecia ter perdido os sentidos.
- É isso que eu causo nos garotos! – Mar apontou pro Danilo que parecia estar excitado.
- Opa!! – ele pegou a almofada que estava em cima do sofá e se protegeu.
- Tá brabo hein pai?! – Jorge gritou fazendo com que Danilo corasse.
Marcela fez um high5 com a Jana e voltou ao seu lugar.
- Sua vez branquela! – eu disse pra Mar e ela girou a garrafa de novo.
O gargalo da garrafa apontou para mim e sua extremidade para o Jorge. Ok, eu estava fodido. A sensação da espinha gelando voltou e parecia que o ar que circulava não era suficiente para mim.
- Verdade ou consequência Gustavinho? – o sorriso irônico do garoto era impressionante.
- Consequência. – eu disse um tanto inseguro. Mas o que poderia ser pior que correr pelado na rua, não é mesmo?
- Acho que tá na hora de você revelar o seu segredo para a Janaína! – Jorge disse e eu congelei.
- Segredo? – Jana disse olhando para mim e para Jorge com uma expressão confusa – Que segredo?
- O Gustavo vai nos dizer agora Jana, relaxa – ele esticou as pernas se mostrando completamente relaxado.
Todos os outros pareciam confusos. Na verdade, eu também estava. Como assim? Que segredo? Ele sabia que eu gosto da Janaína? Como?
- Que… Que segredo? – eu me arrisquei a perguntar.
- Conte-nos sobre seus sentimentos, Guto – ele manteve o sorriso irônico e um tanto cruel.
Droga. Ele sabia, de alguma forma. Não sei como, nunca contei isso. Ah, o que eu faço? Conto ou não? Na verdade estou sem saída, ou conto eu ou o Jorge abre a boca de lata dele. Mas se a Janaina não olhar mais na minha cara eu mato o Jorge.
Respirei fundo e olhei para a Jana que estava com aquela carinha linda voltada para mim. Seus olhos demonstravam uma confusão interior e sua boca entreaberta dava uma ideia de que ela queria perguntar algo. Abaixei a cabeça e me preparei para dizer tudo.
- Janaína, nos conhecemos há uns quatro anos certo? – olhei para ela que assentiu e eu continuei mantendo minha cabeça abaixada – Assim que eu te vi pela primeira vez, eu te achei linda e eu queria tomá-la em meus braços e dizer que você tinha que ser minha. Mas você disse que eu era como um irmão mais velho para você e eu simplesmente não pude com isso. Sei lá, eu empurrei isso com a barriga e a cada dia que passava e eu estava perto de você era como se… Os meus sentimentos aumentasse, e… Bom… – suspirei e olhei novamente para ela que parecia surpresa. Eu ainda gosto de você – dei um riso contido.
Danilo e Marcela olhavam surpresos para mim e Jorge parecia nem se importar. O filho da puta sabia de tudo mesmo. Jana estava com os olhos marejados e coçava o nariz tentando afastar as lágrimas. Eu conhecia suas manias.
Ela respirou fundo, olhou pra cima e em seguida para mim. Tentava dizer algo mas parecia que as palavras não saiam com a facilidade de sempre. Após alguns segundos, ela finalmente parecia que ia dizer algo.
- Você… – ela sorriu de nervoso – Você gosta de mim? – apontou pra si mesma, como se fosse uma criatura abominável.
- Eu gosto – eu disse com uma confiança que jamais pensei que pudesse existir em mim.
- Eu jurava que você gostava da Leandra, eu e a Marcela conversávamos sobre isso sempre. – ela riu – Você gosta de mim.
O que ela estava querendo dizer?
- O que… O que você quer dizer?
- A Jana gosta de você também seu bocó – Jorge disse olhando para mim com uma cara de “dãr”.
Senti meu estômago formigar.
- Você gosta de mim Janaína? – minha incredulidade sobressaia na minha voz.
- Gosto – ela abaixou a cabeça e eu senti algo indescritível.
Pude ver a Marcela batendo palminhas freneticamente enquanto eu me levantava e ia de encontro a Jana que estava ainda sentada no chão e olhando para seu short. Assim que me aproximei dela, a vi levantando a cabeça devagar e estiquei minha mão para que ela segurasse. Dei um impulso para levantá-la e assim que ela o fez veio parar em meus braços. Olhei-a por alguns instantes e pude notar suas bochechas rosarem, sorri e ela fez o mesmo. Abracei-a forte e senti que suas pernas fraquejaram, fazendo com que ela de fato depositasse o peso do seu corpo sobre mim.
Eu necessitava abraçá-la antes de qualquer coisa, pois eu escondi meu afeto por ela durante quatro anos. E agora eu sabia que ela era minha durante todo esse tempo e que a única coisa que nos impedia era a incerteza e o medo dos nossos sentimentos. Afastamo-nos após alguns minutos e olhei novamente para seu belo rosto, coloquei uma mecha do seu cabelo extremamente cacheado para trás de sua orelha e mordi meus lábios. A verdade era que eu nem lembrava mais que Danilo, Jorge e Marcela estavam ainda ali, apenas fomos aproximando os nossos rostos e selamos nossos lábios finalmente. Senti a maciez da boca da garota que eu gostava e depois de apreciarmos esse momento, nos permitimos a um beijo de verdade.
Assim que cessamos o beijo, pude ver o sorriso da minha menina e meu coração acelerou ainda mais, se é que poderia ser possível. Viramos para a turma e todos estavam em pé, sorrindo e pareciam felizes por nós dois. Inclusive o filho da puta do Jorge.
- E essa é a minha vingança dude! – ele veio até mim sorrindo e me cumprimentou com um high5.
- Como você sabia, cara? – perguntei ainda sem entender.
- Melhores amigos sempre sabem das coisas – ele disse com sinceridade e eu o abracei.
- Valeu cara!
Marcela abraçou a Janaína e depois o Danilo fez high5 comigo também.
- Chega dessa brincadeira, acabou tudo de uma forma estranha! Daqui a pouco vamos sair casados – Marcela disse rindo.
- Cruz credo! – Jorge fez uma careta e nós rimos.
- Que tal irmos lá pra praça, ficar cantando e tocando violão?
- Amei a ideia – Jana disse sorrindo e os demais concordaram.
Peguei o violão que estava no sofá e saímos todos juntos. Eu, meus amigos e minha futura namorada.
[…] - Sinto muito Hannah - ele disse com a voz quase inaudível e seus olhos davam indício de lágrimas.
Eu estava muda. Não sabia o que dizer, minhas pernas estavam trêmulas e meu coração doía. Mas nada disso definia o meu sentimento no momento, eu estava morrendo aos poucos.
- Eu vou ter que ir meu amor, eu tenho que ir. Meu pai me obrigou, você não o conhece Hannah, ele… Ele impõe as coisas do jeito dele - sua voz estava tão trêmula quanto eu.
- Eu… - tentei dizer algo, mas era impossível.
- Eu te amo, nunca vou deixar de te amar, eu volto - ele se levantou e segurou o meu rosto com as mãos- Eu nunca vou esquecer você, manteremos contato, você sabe…
Tentei olhá-lo nos olhos, mas senti a minha visão embaçar por causa das lágrimas. Respirei bem fundo e acumulei forças para poder dizer algo.
- Você não pode ir, eu não vou aguentar viver sem você do meu lado Thomas. Entende? Eu não vou aguentar - desabei em lágrimas e ele abraçou-me bem forte. Não viveria sem esse abraço, sem o calor do seu corpo. Não iria aguentar viver sem ele. […]
O Thomas e eu nos conhecemos desde o meu segundo ano na faculdade de Engenharia. Somos colegas de faculdade, porém seu curso era de Engenharia mecânica e eu faço Civil. Hoje eu estou no meu quarto ano e ele se formou mês passado. Seus planos era de começar a trabalhar em uma fábrica que abriu recentemente e assim que tudo estivesse andando bem, compraríamos a nossa casa. Foram muitos planos que tivemos juntos, queríamos nos casar assim que eu me formasse e começasse a trabalhar. Temos muito problemas é claro, mas juntos nós resolvemos tudo sem quaisquer complicação maior. Nos amamos, nos amamos imensamente. Meus pais o adoram e o tratam como se fosse um filho. Já os seus pais eu nunca conheci, já que eles moram na Europa há muito tempo. O Thom disse que seus pais possuem uma empresa de grande reconhecimento no país e que sempre lhe ofereceram o de melhor por lá, porém ele não se habituaria lá e estava cursando aqui no Brasil.
Mas hoje o Thomas me ligou dizendo que precisaria conversar urgentemente comigo. Não pensei que o assunto seria tão grave e que me magoaria tanto. Ele chegou aqui em casa e meus pais o receberam e pediram que ele viesse até meu quarto. Assim que ele bateu na porta, senti meu coração acelerar. Abri a porta e ele me abraçou.
- Meu amor, meu amor… - ele disse enquanto me abraçava forte e eu não entendi nada.
- O que houve Thomas? - eu o afastei e vi que estava chorando.
- Eu… - ele respirou fundo.
- Senta. - apontei pra cama e nos sentamos um diante do outro- Já percebi que o assunto é grave.
- Meu pai, meu pai me ligou hoje.
- E o que é que tem? Aconteceu algo com ele, com sua mãe? - eu me assustei com a idéia.
- Graças a Deus não. - ele disse, mas não parecia nada aliviado.
- Quer me contar logo ou vai me deixar apreensiva?
- Meu pai me ligou hoje, dizendo que sua empresa abriu mais uma filial e que estava precisando de mão de obra. Digamos, ele precisa de pessoas de responsabilidade para ajudá-lo a presidir a empresa.
- E…? - eu não havia entendido aonde ele queria chegar.
- Ele ordenou que eu fosse…
Tentei digerir as cinco palavras que ele acabara de dizer.
- Você… - eu ri sem jeito - Você rejeitou?
Ele abaixou a cabeça e meu coração deu uma golpeada violenta.
- Você - respirei bem fundo - Você não vai não é? - ele não disse nada e eu continuei - Me diz Thomas, me diz que você não vai.
- Ele me ordenou Hannah… - seus olhos tentaram me fitar, mas ele parecia bastante envergonhado para conseguir isso.
- Sinto muito Hannah - ele disse com a voz quase inaudível e seus olhos davam indício de lágrimas.
Eu estava muda. Não sabia o que dizer, minhas pernas estavam trêmulas e meu coração doía. Mas nada disso definia o meu sentimento no momento, eu estava morrendo aos poucos.
- Eu vou ter que ir meu amor, eu tenho que ir. Meu pai me obrigou, você não o conhece Hannah, ele… Ele impõe as coisas do jeito dele - sua voz estava tão trêmula quanto eu.
- Eu… - tentei dizer algo, mas era impossível.
- Eu te amo, nunca vou deixar de te amar, eu volto - ele se levantou e segurou o meu rosto com as mãos- Eu nunca vou esquecer você, manteremos contato, você sabe…
Tentei olhá-lo nos olhos, mas senti a minha visão embaçar por causa das lágrimas. Respirei bem fundo e acumulei forças para poder dizer algo.
- Você não pode ir, eu não vou aguentar viver sem você do meu lado Thomas. Entende? Eu não vou aguentar - desabei em lágrimas e ele abraçou-me bem forte. Não viveria sem esse abraço, sem o calor do seu corpo. Não iria aguentar viver sem ele.
- Eu disse que não iria, que não poderia ir. Que eu já tinha arrumado um emprego por aqui e que eu tinha você, que iríamos nos casar em breve. Eu disse isso e praticamente implorei para que ele me deixasse aqui, no meu canto, como sempre, mas… Ele é insuportavelmente controlador, ele consegue jogar tudo na minha cara, tudo o que ele “fez” por mim. Ele usa os meus sentimentos e os da mamãe para me convencer e seus argumentos são incontestáveis na visão dele. Além disso ele disse que me pagaria muito bem e que depois quando eu tivesse maturidade o suficiente me deixaria voltar. Eu pensei em nós dois Hannah, e como eu pensei. Em tudo que vivemos e em tudo que estava por vir. Mas também pensei no que poderíamos ter se eu trabalhasse com o papai. Você sabe que eu nunca quis depender dele e que, tudo o que eu quero é a minha independência financeira. Me diga… - ele olhou profundamente em meus olhos- Não seria bom pra mim se eu trabalhasse em uma big empresa? Pra nós dois meu amor… - ele sorriu brevemente.- Você ainda tem mais um ano de faculdade e depois você pode morar em Londres comigo. Imagine nós dois lá… por favor Hannah, apenas imagine tudo o que teremos se eu for pra lá.
Com lágrimas nos olhos, eu balancei a cabeça em sinal de reprovação.
- Sabe o que é viver um ano sem você aqui? - eu o olhei sem temor- Como eu vou almoçar naquele nosso restaurante sem você estando ao meu lado? Me diz Thomas? - as lágrimas rolavam em meu rosto novamente.- Eu não vou conseguir dormir aqui em dias de quarta feira, porque eu vou sentir falta do seu abraço me aconchegando enquanto eu durmo. Os meus sábados serão vazios porque você não vai estar aqui pra almoçar conosco e nos domingos passarei meu dia todo em casa porque não vou poder ir na sua casa comer as suas massas. Eu não quero ser egoísta, eu juro. - fechei os olhos por um momento- Mas eu não consigo me sentir bem Thom, eu não consigo. Eu te amo, e não tem nada pior do que ficar sem você. Um ano, 12 meses, 365 dias. Isso é o bastante pra me machucar o suficiente até eu morrer. E se eu conseguir uma proposta de emprego irrecusável por aqui? Eu não vou poder sair do Brasil. Meus pais não irião apoiar essa decisão nunca. E lá eu não vou poder ser Engenheira, porque meu diploma não vale de nada em Londres. Eu não vou depender de você, eu não concordo com isso e você sabe… Me diga, e eu?
Ele abaixou a cabeça e em seguida me olhou com ternura.
- Eu te amo muito Hannah, eu te amo demais. Você não tem idéia de como dói te ver chorar por mim, meu Deus. Eu te amo Hannah - ele me olhou e em seguida me beijou.
Nosso beijo. Nosso beijo era doce, era terno, era perfeito. Tinha uma dose concentrada de amor com o equilibio do desejo, da paixão. Meu corpo tremia pois estava com medo e com saudades precipitadas. Eu sentia meus pelos se arrepiarem por conta do nosso contato e eu queria sempre estar em seus braços. O Thomas era o único que me passava tanta segurança, tanta proteção. Eu o amo, por Deus, como eu o amo. Eu não quero prendê-lo, essa é uma oportunidade de ouro pra ele. Mas também não posso fingir que tudo ficará bem. Sentirei saudades, sentirei muita saudade. Eu ficarei frágil e fraca sem ele. Eu sei disso. Não quero tê-lo apenas por ligações, mensagens de texto ou webcam. Nada disso me fará sentir completa como o seu abraço e o seu beijo me faz. Nada disso me causará arrepios como o contato de seus lábios úmidos na minha orelha enquanto ele diz que me ama com toda a sensualidade que possui. Eu não ficarei bem, eu não ficarei nada bem, mas… Eu o esperarei. É isso que os apaixonados fazem não é? Esperam pela pessoa amada. Pois eu o farei. Esperarei por ele e vou continuar amando-o.
- Eu vou ficar aqui - fechei meus olhos enquanto eu chorava - Eu vou esperar você. Eu prometo, eu… Vai doer, e vai doer muito. Mas, eu te amo. Eu quero te ver realizado, eu vou fazer isso por você e por nós dois.- abri os olhos e ele acariciou o meu rosto - Mas você tem que voltar, você tem que voltar pra mim. Eu quero você aqui Thomas, porque o nosso futuro é aqui. A nossa casa, o nosso casamento, os nossos filhos devem nascer aqui. Aqui, no Brasil.
Ele sorriu.
- Eu vou voltar exatamente quando completar um ano. Compraremos a nossa casa no campo, distante da cidade como você sempre quis - eu sorri também - E teremos um quintal bem grande pras nossas crianças e pro nosso cachorro. Eu prometo Hannah. E vamos marcar o nosso casamento assim que eu chegar aqui, vamos nos casar o mais breve possível - ele me deu um selinho.- Eu te amo minha princesa, e eu serei sempre seu, aqui ou em Londres.
- Eu serei sempre sua Thom - as lágrimas rolavam no meu rosto e ele tentava enxugá-las.
- Posso dizer que esse é um casamento prévio? - ele beijou minhas mãos e eu assenti.
- É o nosso casamento prévio.
Sorrimos e nos abraçamos fortemente.
Eu sei que será difícil mas não desistirei dele, do nosso amor. Um ano distantes, mas sempre unidos por um laço inquebrável.
O nosso amor.